Mistério e “Tribunal do Crime”: O que se sabe sobre o cemitério clandestino do funk em SP

Descoberta de quatro corpos na favela de Heliópolis joga luz sobre suposta retaliação de facção criminosa contra funcionários de produtora musical e ressuscita teorias sobre MC Kevin.

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Misterio E Tribunal Do Crime O Que Se Sabe Sobre O Cemiterio Clandestino Do Funk Em Sp

Uma clareira em uma área de vegetação na comunidade de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, transformou-se no centro de uma complexa investigação policial. A descoberta de um cemitério clandestino com quatro corpos ligou o sinal de alerta no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que apura a execução de profissionais ligados ao cenário do funk paulista por um suposto “tribunal do crime” comandado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

Abaixo, confira os principais pontos que cercam o caso que chocou o mundo da música periférica nesta semana.

1. A descoberta dos corpos e as vítimas identificadas

O caso começou a vir à tona na última segunda-feira (25/05), quando guardas civis municipais localizaram três corpos cobertos por cobertores em valas rasas com terra mexida. Ao retornar ao local no dia seguinte, a Polícia Civil localizou um quarto corpo em avançado estado de decomposição.

Até o momento, duas vítimas foram formalmente identificadas:

  • Jonas Barros de Oliveira (25 anos): Conhecido no meio artístico como “Gigante” ou “MC GG”, ele atuava como produtor musical e estava iniciando sua carreira como cantor de funk.
  • Francisco Rubens Souza Cruz (46 anos): Trabalhava como motorista da mesma produtora de Gigante, a Damassaclan. Segundo testemunhas, ele teria sido visto pela última vez na sexta-feira (22/05), após ser chamado para “trocar uma ideia” com homens em um carro preto.

A polícia suspeita que o terceiro corpo seja de Werlen Moitinho Vieira, gerente da produtora, que também está desaparecido. Embora os exames periciais ainda não tenham saído, familiares reconheceram que as roupas encontradas no cadáver pertenciam a ele. O quarto corpo, enterrado há mais tempo, pode pertencer a uma vítima antiga sem relação direta com os funcionários da empresa.

2. A principal linha de investigação: Recusa ao PCC

A principal hipótese trabalhada pelo DHPP é a de homicídio qualificado conduzido pelo “tribunal do crime”. Testemunhas relataram aos investigadores que o cantor e produtor Jonas (“Gigante”) vinha recebendo fortes ameaças de morte. O motivo teria sido a recusa dele a uma proposta de transferência para uma outra produtora musical que seria controlada e financiada por integrantes do PCC. No jargão do crime organizado, a negativa foi interpretada como uma “ofensa”, motivando a sentença de morte coletiva dos funcionários.

3. A postagem misteriosa e a conexão com MC Kevin

O caso ganhou contornos ainda mais dramáticos após uma publicação enigmática feita — e logo em seguida apagada — nas redes sociais da produtora Damassaclan. Antes de deletar o post, a página oficial afirmou que o gerente Werlen teria sido cruelmente enforcado e baleado na cabeça, e disparou uma acusação que agitou as redes sociais:

“Descobrimos quem matou o Kevin, agora começaram a matar a gente!”

A frase reacendeu imediatamente antigas teorias da conspiração na internet sobre a morte de MC Kevin, funkeiro que faleceu em 2021 após cair da varanda de um hotel no Rio de Janeiro. Na época, a Polícia Civil fluminense concluiu que a morte de Kevin foi acidental e descartou a participação de terceiros.

Apesar de a menção ter gerado forte repercussão — inclusive citando indiretamente o nome da advogada e influenciadora Deolane Bezerra, ex-namorada de Kevin e recentemente alvo de investigações sobre lavagem de dinheiro —, as autoridades policiais tratam a postagem com cautela e mantêm o foco técnico na disputa comercial-criminosa envolvendo as produtoras de funk atuais.

Próximos passos

O caso segue registrado no 95º Distrito Policial (Heliópolis) com o suporte integral do DHPP. As buscas na região de mata continuam para garantir que não haja outras vítimas ocultas, enquanto perícias necroscópicas e testes de DNA buscam confirmar a identidade do terceiro corpo e determinar com precisão a causa das mortes. Ninguém foi preso até o momento.