
O governo de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas, incluiu o Memorial da América Latina no Programa de Parcerias em Investimentos do Estado de São Paulo (PPI-SP), determinando o desenvolvimento de estudos para preparar uma proposta de parceria com a iniciativa privada. A decisão, publicada no Diário Oficial, abre caminho para possíveis mudanças na gestão da instituição localizada na Barra Funda, zona oeste da capital paulista.
Segundo a resolução governamental, o projeto prevê a “delegação da exploração, manutenção e adequação do Memorial da América Latina” a parceiros privados. A medida integra um conjunto de iniciativas que também inclui outros patrimônios históricos paulistas, como o Palacete Franco Mello, o Casarão da Paulista, e a Casa das Retortas, no Brás. O objetivo declarado é modernizar a infraestrutura e operação desses espaços através de investimentos privados.
No entanto, a inclusão do Memorial no programa de concessões gerou reações imediatas da própria instituição. Pedro Mastrobuono, presidente da Fundação Memorial da América Latina, afirmou que a fundação “não foi procurada em nenhum momento” para discutir a inclusão do complexo em estudos de concessão. A falta de diálogo prévio entre o governo estadual e a administração da fundação marca um ponto de tensão importante nesse processo.
Preocupações com preservação do acervo
As críticas de Mastrobuono vão além da falta de consulta prévia. O presidente da fundação expressa preocupação grave com os potenciais impactos de uma concessão na instituição. “Reitero que o impacto potencial é gravíssimo. O Memorial não é um terreno disponível, não é uma praça de eventos, não é um ativo imobiliário e não pode ser tratado apenas como uma estrutura a ser explorada comercialmente”, declarou em nota enviada à imprensa.
Mastrobuono enfatiza a natureza particular do Memorial, destacando sua missão institucional complexa. A fundação pública possui estatuto próprio, Conselho Curador, compromissos internacionais e um acervo artístico e histórico composto por aproximadamente seis mil obras. Além disso, mantém programas acadêmicos e científicos em andamento que, segundo sua administração, poderiam ser comprometidos por uma estrutura de concessão focada na exploração comercial.
O presidente teme especificamente que uma possível concessão coloque em risco a integridade do acervo, a autonomia da fundação e os projetos em desenvolvimento. Essas preocupações refletem uma tensão fundamental entre a lógica de mercado que orienta programas de parcerias público-privadas e a missão de preservação cultural e produção acadêmica que caracteriza instituições como o Memorial.
Contexto das políticas de concessão
A inclusão do Memorial da América Latina no PPI-SP insere-se em uma estratégia mais ampla do governo estadual de modernizar patrimônios públicos através de parcerias com a iniciativa privada. Essa abordagem visa atrair investimentos privados para manutenção e adequação de estruturas, reduzindo pressões orçamentárias do Estado.
No entanto, a aplicação dessa lógica a instituições culturais e de pesquisa apresenta desafios específicos. Diferentemente de infraestruturas de transportes ou energia, onde os modelos de concessão estão mais consolidados, patrimônios históricos e culturais envolvem questões de preservação, acesso público e missão institucional que não se alinham facilmente com objetivos comerciais.
Próximos passos e perspectivas
O governo estadual deverá conduzir estudos técnicos para avaliar viabilidade econômica e modelos de parceria para o Memorial. Esses estudos definirão as condições sob as quais a iniciativa privada poderia atuar na instituição, seja na exploração de espaços para eventos, na gestão de cafeterias e lojas, ou em outras atividades comerciais.
A posição da Fundação Memorial da América Latina sugere que haverá resistência a modelos que comprometam sua autonomia institucional ou direcionem suas atividades primordialmente para fins comerciais. O diálogo entre governo estadual e fundação será crucial nos próximos meses para definir se e como a concessão avançará.
A situação do Memorial exemplifica desafios contemporâneos na gestão de patrimônios públicos: equilibrar necessidades de modernização e sustentabilidade financeira com responsabilidades de preservação cultural e missão institucional. As próximas semanas definirão se governo e fundação conseguirão encontrar um caminho que concilie essas demandas ou se a inclusão no PPI-SP resultará em conflito institucional.

Jornalista com mais de 9 anos de experiência, estudou na faculdade ESACM, e trabalhou no jornal impressos O Democrata, com circulação na região de São Roque, interior de São Paulo, bem como trabalhou na televisão, na REDETV em Osasco, sendo produtor do RedeTV News, trabalhou por um período no São Roque Notícias em 2011, e fundou o popular jornal Correio do Interior em 2016. Em 2020 tornou-se correspondente do Metrópoles no interior de São Paulo. Ainda em 2020 foi convidado pelo Google Brasil a participar do Google News Initiative (GNI) para aprimorar-se em boas práticas do jornalismo digital. Como jornalista é especialista em assuntos de vagas de trabalho, noticias locais e conteúdos de editoria regional e policial.





