Deputados de Sorocaba apoiam projeto que dificulta aborto em crianças estupradas

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Na última quarta-feira (5), a Câmara dos Deputados aprovou com urgência o PDL 3/2025, um projeto que está dando o que falar — e não é à toa. A proposta, que recebeu 317 votos favoráveis e 111 contrários, pode tornar ainda mais difícil o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes que sofreram violência sexual. E entre os que votaram a favor estão três representantes da região de Sorocaba: Jefferson Campos (PL), Simone Marquetto (MDB) e Vitor Lippi (PSDB).

O que diz o projeto?

O texto foi apresentado pela deputada Chris Tonietto (PL-RJ) e tem como objetivo suspender uma resolução do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente). Essa resolução detalhava como garantir o acesso ao aborto legal para menores vítimas de estupro — um direito já previsto na legislação brasileira em três situações: risco de vida para a gestante, anencefalia do feto e gravidez resultante de violência sexual.

A advogada Juliana Saraiva, presidente da Comissão de Direitos Infantojuvenis da OAB Sorocaba, não poupou críticas. Em entrevista ao Portal Porque, ela classificou o projeto como um retrocesso histórico. “Estão criando barreiras burocráticas e técnicas para dificultar que essas vítimas acessem um direito que já é garantido por lei”, afirmou.

Juliana também lembrou que o STF derrubou recentemente uma liminar que permitia que enfermeiros e técnicos realizassem abortos legais, o que pode restringir ainda mais o acesso ao procedimento em várias partes do país. “Essas propostas ignoram completamente a realidade da violência sexual no Brasil”, completou.

E a situação é preocupante. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, Sorocaba registrou 184 casos de estupro de vulnerável entre janeiro e setembro deste ano — um aumento de 26,8% em relação ao mesmo período de 2024.

Juliana reforça que, pelo Código Penal, uma menina menor de 14 anos grávida já é considerada vítima de estupro, sem necessidade de autorização judicial para realizar o aborto legal.

O Ministério das Mulheres também se manifestou, chamando o projeto de um retrocesso na proteção de meninas e adolescentes. Em nota, o órgão destacou que entre 2013 e 2023, mais de 232 mil crianças com até 14 anos deram à luz no Brasil — todas em idade abaixo do consentimento legal. Em 2023, apenas 154 meninas conseguiram acessar o aborto legal, mesmo sendo vítimas de estupro.

A nota ainda alerta que a gravidez precoce é a principal causa de evasão escolar entre meninas e que, tragicamente, uma menina morre por semana no país por complicações relacionadas à gestação. “Suspender essa medida é fechar os olhos para a violência e falhar com as meninas brasileiras”, diz o comunicado.

A reportagem tentou contato com os três deputados federais da região de Sorocaba, mas até o momento nenhum deles se pronunciou. Caso haja resposta, a matéria será atualizada.