Rio Sorocaba, Itupararanga e o cenário da crise hídrica do interior de SP
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Rio Sorocaba, Itupararanga e o cenário da crise hídrica do interior de SP

Redação

16 de novembro de 2021
Atualização:16 nov 2021 às 17:24

O Brasil está passando pela maior crise hídrica dos últimos 91 anos. Sorocaba apurou 50% da média de chuvas no último verão 2020/2021. Porém, recentemente, todos nós já havíamos passado por uma forte crise hídrica que abateu especialmente a capital paulista em 2014, quando foi necessário retirar água do volume morto do manancial da Cantareira (sem dizer o racionamento elétrico em 2001). Itu, aqui na nossa região metropolitana de Sorocaba também sofreu muito naquele ano. Devemos lembrar também as altas temperaturas e poucas chuvas. Portanto, não há como negar o efeito das mudanças climáticas no mundo, no Brasil e em nossa região metropolitana de Sorocaba.

Nosso quase despoluído rio Sorocaba é formado pela junção dos rios Una, Sorocabuçu e Sorocamirim, à jusante da barragem construída em Votorantim, mas ainda antes, no município de Ibiúna. O rio Sorocaba também é formado por muitos outros córregos e nascentes que foram represados pela represa/barragem de Itupararanga, inaugurada em 1914 e voltada à geração de energia. Portanto, as águas da represa já são as águas do nosso rio Sorocaba! Dada a importância desse manancial também foi criada em 1998 a Área de Proteção Ambiental (APA) de Itupararanga. O rio Sorocaba, que pertence à bacia do rio Sorocaba e Médio Tietê tem cerca de 227 km considerando seu leito em trajeto natural e é considerado tanto o maior como o mais importante afluente da margem esquerda do rio Tietê.

Cerca de 85% da população de Sorocaba (600.000 pessoas) depende diretamente do reservatório de Itupararanga que registrou um dos seus níveis mais baixos em 107 anos de existência, operando com aproximados 22% de sua capacidade, sendo que nesta última semana entre 10 e 15 de novembro passou a barreira de 817,5 metros em relação ao nível do mar, alcançando o nível mínimo operacional praticado do reservatório.

O reservatório é desafiado a liberar cerca de 8,15 m³/s de água, sendo 1,95 m³ para o SAAE Sorocaba (há, ainda, mais 0,75 m³/s retirados diretamente do rio Sorocaba pela nova ETA Vitória Régia) e 6,0 m³ tanto para geração de energia como para manter a necessária vazão sanitária à sobrevivência do rio Sorocaba que também complementa o abastecimento não somente público mas, rural, industrial, mineração e outros usos de cidades como Boituva, Cerquilho, Ibiúna, Iperó, Laranjal Paulista, Piedade, Porto Feliz, Tatuí e Votorantim que juntas, somam mais 600.000 pessoas. Foi preciso uma forte ação do Comitê de Bacias em agosto recomendando a redução da vazão de geração de energia/sanitária de 6,0 m³/s para 4,5 m³, estando agora em 3,0 m³/s e precisando rebaixar mais, para 2,75 m³ p/ s. Como impacto, estamos percebendo a formação de bancos de areia no rio Sorocaba e verificou-se alguma mortandade de peixes cujas causas ainda estão sendo investigadas.

Caro leitor, você deve ter percebido que temos um sistema único entre o reservatório e o rio Sorocaba. Caindo o nível do reservatório, ficará prejudicado o abastecimento de Sorocaba, sem dizer a degradação da qualidade das águas; e o rio Sorocaba poderá secar ainda mais, degradar e prejudicar o abastecimento de milhares de pessoas dos municípios citados. Portanto, neste momento de severa estiagem precisamos economizar muita, mas muita água para que tanto o SAAE Sorocaba como todos os demais municípios possam corajosamente reduzir sua captação agora em meados novembro implementando rodízios cautelares e educativos, além de fazer uma ampla pesquisa de possíveis unidades clandestinas que retiram água do rio Sorocaba tanto à montante como à jusante sem as devidas outorgas, bem como uma forte ação de fiscalização de construções ilegais e recuperação de áreas verdes; também estabelecer metas para o nível mínimo de água represada ao final de cada mês até abril/2022 além de muita fé para que as chuvas realmente cheguem e que não fiquem abaixo da média.

Profa. Msc. Eleusa Maria da Silva, advogada, mestre em Sustentabilidade Ambiental, presidente da comissão de direito ambiental da OAB Votorantim e coordenadora da Câmara Técnica de Saneamento do CBH-SMT.

Prof. Msc. Flaviano A. de Lima, Professor da Fatec Tatuí/SP, advogado, economista, mestre em economia e doutorando em Ciências Ambientais pela Unesp Sorocaba, interior de São Paulo.

Prof. Dr. Francisco Carlos Ribeiro, Professor Pesquisador em Tempo integral do Centro Paula Souza, Fatec Sorocaba. É Conselheiro de Desenvolvimento Econômico e Vice-Presidente do Conselho de Desenvolvimento Rural de Sorocaba.

Prof. Dr. Vidal Dias da Mota Junior, Pós-Doutor em Ciências Ambientais, Doutor em Ciências Sociais, Professor e Pesquisador dos cursos de Graduação e Pós-Graduação da Universidade de Sorocaba. Foi Diretor de Gestão Ambiental da Prefeitura Municipal de Sorocaba, Diretor do Parque Tecnológico de Sorocaba e Assessor Técnico da Agência Metropolitana de Sorocaba.

O Correio do Interior é produzido por jornalistas que apuram e chegacam informações dos fatos diariamente notíciados no jornal.

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