Lázaro Barbosa diz que está cansado e pede perdão para vítimas

Igor Juan

27 de junho de 2021
Atualização:27 jun 2021 às 18:33

Uma carta que pode ter sido escrita por Lázaro Barbosa de Sousa, de 32 anos, foi encontrada dentro de uma mochila por uma moradora de uma chácara no Parque Águas Bonitas, em Águas Lindas de Goiás, onde ele diz que “para não haver mais nada com ninguém, talvez eu me mate por aí, mas vocês não vão encontrar”.

É uma carta com teor suicida, que demonstra cansaço e arrependimento. Lázaro, pede em mais de um trecho da carta que as famílias das vítimas o perdoem pelos crimes cometidos. Afirma que passou 7 anos preso e que fugiu depois de denunciar agentes do presídio por tentativa estupro. Os agentes teriam tentado violentá-lo com cassetete. Além disso, relata que a direção do presídio ordenava que os presos batessem nele todo dia.

Afirma que não terminou os estudos, teve uma infância de privações e de violência familiar e que ao vir embora pra Goiás aos 13 anos para trabalhar o pai o expulsou de casa. Ele não conseguiu trabalho e começou a roubar. Prometeu para si mesmo não voltar para a cadeia.
Ele ainda fala do amor que sente pela mãe, pela esposa e pelos dois filhos. Que sente saudade da família.

Diz que uma pessoa chamada Geraldo tem espalhado mentiras sobre ele. Que não faz “macumba” e que se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente. “Eu sou Lázaro. Eu peço perdão às famílias das vitimas. Não vou estar mais por aqui. Vou ter que ir, mas estou arrasado comigo mesmo. Para não haver mais nada com ninguém talvez eu mate por aí, mas vocês não vão encontrar”, finaliza a carta que foi entregue para a Polícia Civil de Goiás e encaminhada para a perícia.

Leia a íntegra da carta atribuída a Lázaro

(Pontos pontilhados estão de trechos ilegíveis. Carta com correções)

“Olá Brasil. Olá, meu ….nosso mundo todo que tem o —- de ter eu —-.
Sou Lázaro Barbosa de Sousa, que pela primeira vez escreve. Não sou como estão falando que fiz isso e vi isso ou aquilo. Não sei muito escrever, pois eu terminei — série direito. Não estou aqui para me justificar, pois nada justifica tamanha crueldade.

Para começar, você, Geraldo fala demais! Como papagaio. Fala porque ouvi mais…é etc. Você que falou que meu remédio é calibre 12 e que, porque não conheço Deus, você falou que eu faço macumba para a PM não me pegar, É um mentiroso e em você não existe verdade.

Eu nasci no interior da Bahia, —-sofredor como muitos. Vivia arrancando toco para ganhar 5 reais por dia. Saí da escola para trabalhar como muitos. Isso aí que você diz que meu pai é, quem justiça…Abandonou a gente graças a Deus. Pai quando vivia conosco era a pior desgraça. Eu e meu irmão vivíamos catando mamonas pra ele vender e beber cachaça e chegar bêbado quebrando as portas.

Eu aprendi a viver no mato porque a minha mãe vivia conosco no mato com medo dele. Com 13 anos eu sai de casa e vim para Goiás, atrás de uma vida melhor. Ele já estava aqui há muito tempo. Pensei que ele poderia ao menos me ajudar, mas ele não fez isso. Me colocou para fora de casa e falou que não ia aceitar vagabundo (trecho ilegível) a uma criança …

Minha tia Amélia que me ajudou, mas eu cresci uma pessoa revoltada. Com tantas coisa que não dá para descrever tudo. Mas não sou só que passou pelo que eu passei. Eu estou assim hoje porque Deus me castigou com dois demônios de tanta cachaça e etc.

Olha Brasil, eu, Lázaro, vivi preso 7 anos por 3 crimes, sendo que sou inocente em um. Meu irmão se envolveu com uma rapariga que ficou com ele e roubou a carteira dele no estabelecimento dela. Já estava cindo quando percebeu que ela teria roubado ele e voltou para pegar o dinheiro. Lá já estava fechado. Arrombamos a porta e roubamos todo mundo, mas ela não falou que foi paga para transar. Falou que nos dois a estupramos.

Fui preso. Lá dentro da prisão eu sofri pior que cachorro sem dono. Apanhava todo dia, toda hora. Rasparam meu cabelo e minhas sobrancelhas. O diretor pedia para os presos me bater. Sofri 9 messes sem poder falar até ser recambiado para o DF.
Eu tenho coração, saudades e sentimentos. Meu único e verdadeiro amor é por minha mãe e uma garota que se chama Ellen e agora, dois filhos que ela me deu. Sempre tive no meu coração que no dia que eu saísse não voltaria mais, pois sou traumatizado com cadeia. Quando fui preso em Águas Lindas até me estuprar com cassetetes os agentes quiseram. E tem denúncia. Pode olhar na minha ficha. Isso ninguém fala.

Tudo que eu passei fez com que eu me tornasse essa pessoa que sou hoje, mas eu temo somente ao MEU DEUS.
Não vou me entregar, pois sei tudo que vou passar. Prefiro a morte. Lá não é centro de reeducação. Lá é ——–de bandido perigoso.

Peço perdão primeiramente ao Criador. Segundo, às criaturas. Peço perdão às famílias que fiz mal. Choro. Meu coração está arrasado de saudades da minha família. Peço a Deus todos os dias que não deixe que eu passe pelo castigo do homem, pois são todos pecadores. Como um pecador quer castigar o pecado do outro?

Desde o dia que eu fugi de Águas Lindas com medo de morrer, pois denunciei a agressão dos agentes, que os denunciados falaram que iam me matar de qualquer jeito. Desde este dia que eu não vivo mais em paz. Parece que onde vou, a polícia está atrás. Não consigo arrumar emprego. Tenho que viver roubando para me sustentar e toda vez que aconteceu alguma coisa, foi reação das vítimas. Todos em Cocalzinho, só de saber que eu estava por perto já começavam a atirar. Eu sei que sou o único errado.

Mas é aquela coisa: Se eu pudesse voltar no tempo eu voltava e faria tudo diferente. Tudo.
Me perdoa meu Deus…

Que Deus conforte os corações das famílias, pois só Deus. Só Deus.

Não faço macumba. Temo ao meu Deus. Só oro. Ainda que eu ande pelo vale escuro como a morte não temerei mal algum, pois o Senhor está comigo. Não sei para onde vou, mas Deus ainda me carrega na palmas das suas mãos, assim como todos eu também estou sofrendo.

E para os policiais que estão atrás de mim, mudem os pensamentos que assim talvez Deus permita que vocês me peguem, pois eu sou ungido de Deus. Deus tem planos na minha vida e não vai deixar que vocês mudem isso, pois Deus é o Criador e vocês são criaturas. Se acalmem! Se for da vontade Dele vai ser. Se não…

Não sei pra onde vou. Só peço a Deus que guie meus passos. Peço a Ele que guie os seus também.
Me perdoem.

Ass. Lázaro Barbosa de Sousa.

Eu sou Lázaro.
Eu peço perdão às famílias das vitimas. Não vou estar mais por aqui. Vou ter de ir, mas estou arrasado comigo mesmo. Para não haver mais nada com ninguém, talvez eu me mate por aí, mas vocês não vão me encontrar.

Advogado põe crédito em celular de Lázaro para se comunicar

O advogado que representa a família de Lázaro Barbosa Sousa de 32 anos, foragido há 16 dias da polícia, Wesley Lacerda, avalia as condições para o caso criminosos acusado de assassinar uma família em Ceilândia no Distrito Federal se entregar.

Wesley Lacerda  espera que Lázaro pare de fugir, para então acionar as autoridades e negociar os termos da entrega.

O advogado afirmou ainda que colocou créditos em dois celulares que supostamente estão com Lázaro. “Espero que ele esteja acompanhando (as notícias). Pode ser que ele ouça a súplica da família e entre em contato e faça essa entrega”, destacou.

Wesley Lacerda disse que foi acionado pela mãe de Lázaro, Eva Maria Sousa, 51, para tomar conta do caso. Os dois se conheceram na fazenda de onde o advogado é proprietário, em Cocalzinho de Goiás. “Ela (Eva) trabalhava para mim na roça e, duas semanas depois do ocorrido em Ceilândia, se mudou. Lázaro também chegou a prestar um serviço temporário para mim há uns três anos, em que mexia com a limpeza de pasto”, detalhou.

Segundo relatou o advogado, o último contato que Lázaro fez com a família foi dois dias depois do assassinato da família Vidal, no Incra 9 de Ceilândia Norte, que vitimou quatro pessoas da mesma família, incluindo os empresários Cleonice Marques, 43, Cláudio Vidal, 48, e os filhos do casal, Gustavo Marques Vidal, 21, e Carlos Eduardo Marques Vidal, 15.

Por ligação, o suspeito afirmou que não teria “agido sozinho” (no crime). “O paradeiro dele é totalmente incerto. A família não sabe onde ele está. Se soubesse, as negociações para a rendição teriam avançado. Não temos nenhum contato”, frisou Wesley.

Negociações para prisão de Lázaro

O advogado ressalta as condições que levará às autoridades, caso Lázaro se entregue à polícia. “Se ele aparecer, vamos ajustar os termos da entrega para onde ele vai (presídio), de modo a garantir a integridade física dele. Como esses crimes são de grande repercussão, ele não pode ficar com a massa carcerária, pois há um risco. Trabalharemos também para que ele tenha o direito ao julgamento com todos os meios de defesa inerentes, se for culpado”, pontuou.

 

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